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Meu pai: uma história de fé, trabalho e legado

Em 1980, Vilson Rodrigues Venancio deixou Guaraqueçaba em busca de uma vida melhor em Paranaguá. Seu esforço moldou minha trajetória e inspirou uma homenagem em arte.

Era o ano de 1980 quando meu pai, Vilson Rodrigues Venancio, pescador, deixou Guaraqueçaba rumo a Paranaguá. Em sua canoa, cheio de expectativa, muita fé e Deus como guia, buscava mais do que sustento: procurava dignidade para ele, sua esposa e seus seis filhos.

Filho de Celso Venancio e Elena Rodrigues, meu saudoso avô e vó, Vilson nasceu em 20 de março de 1955. Homem simples, sem estudo formal ou conhecimento técnico, encontrou no trabalho duro o caminho para mudar sua realidade. E, naquele tempo, serviço não faltava.

Foto capa blog

Trabalhou em diversas empresas, entre elas a Sanbra – Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro – onde permaneceu por alguns anos. Mais tarde, ingressou no Sindicato dos Arrumadores de Paranaguá, até se aposentar. Nos intervalos do trabalho, se aventurava na pesca e, em tempos ainda permitidos, na caça – formas alternativas de garantir o sustento da família.

Nada foi fácil. Sustentar seis filhos em tempos difíceis exigia mais do que força física – exigia coragem e compromisso. E foi isso que ele me ensinou, pelo exemplo. Trabalhou, construiu sua casa com esforço próprio, ajudou os filhos a crescerem e se formarem. Hoje, ele tem o orgulho de ver os netos crescerem ao seu lado, e eu, o privilégio, por ser o primogênito, de dizer que sou jornalista formado aos 50 anos por ser resiliente, estudar, manter-me forte, ser filho de um pescador e por tê-lo como exemplo de vida.

Em homenagem a essa trajetória de vida, pedi ao artista plástico Deocir Gomes dos Santos – que infelizmente nos deixou em 24 de outubro de 2024 (https://blogedyevenancio.blogspot.com/2024/10/descanse-em-paz-deocir-gomes.html) – que eternizasse essa história em um quadro. E assim foi feito. A pintura representa não só meu pai com seu remo, sua canoa e seus cachorros, mas todo o legado de luta, humildade e amor que ele carrega e transmite até hoje.

Fotos abaixo 01.01.2019





Quadro feito através da I. A.


Texto e fotos: Jornalista Edye Venancio

Descanse em paz Deocir Gomes

Paranaguá se despede do artista Deocir Gomes, referência na arte caiçara e na representação da Ilha dos Valadares

Com obras que retrataram a vida simples e bela do litoral, Deocir deixa um legado marcado pela identidade parnanguara e pela conexão com sua terra.

Faleceu o artista plástico, pintor e escultor Deocir Gomes, reconhecido por retratar com sensibilidade e talento as paisagens de Paranaguá e, especialmente, da Ilha dos Valadares. Suas obras, sempre marcadas pela ligação profunda com a cultura caiçara, conquistaram o carinho dos moradores e ajudaram a eternizar o cotidiano da comunidade litorânea.

Entre suas criações mais simbólicas está o quadro de um pescador ao lado de seus cachorros, tendo como cenário o cartão postal de Paranaguá. A obra é uma homenagem à vida simples da ilha — e, para muitos, tem significado pessoal. Esse quadro retrata o meu pai indo para a pescaria. É uma lembrança viva da nossa história.

Além de sua arte, Deocir deixa também uma reflexão sobre o reconhecimento de talentos locais. Comentei recentemente em uma conversa com amigos que faltou valorização em vida. Agora, depois de falecido, vão querer colocar nomes de rua e fazer homenagens para apenas se promover. O que deveria ser feito era valorizar o artista, ele queria apenas o reconhecimento do seu trabalho.

O legado de Deocir Gomes permanece vivo nas telas, esculturas e na memória afetiva de uma cidade que, aos poucos, redescobre a importância de valorizar quem ajuda a contar sua história com pinceladas de verdade e sentimento.

Nossos sentimentos a todos os familiares, amigos e admiradores do artista neste momento de dor.

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Texto: Edye Venancio


Ilha dos Valadares: alguém lembra do índio?

Estátua do índio Carijó na Ilha dos Valadares vira memória e levanta questionamentos sobre representatividade cultural.

Instalada como homenagem aos povos originários, a escultura foi alvo de vandalismo e segue esquecida, enquanto moradores cobram símbolos que representem a identidade local.

No século XVI, os índios Carijós tiveram papel fundamental na história do Paraná. Durante as bandeiras paulistas, muitos foram capturados e levados como escravos para trabalhar nos engenhos de São Vicente e do Nordeste. Os que permaneceram foram explorados na busca por ouro ou fugiram rumo ao interior do país, como Goiás. Com o tempo, foram sendo exterminados ou assimilados, dando origem a comunidades caboclas e caiçaras.

A importância histórica desse povo originário levou à criação de uma estátua em sua homenagem, instalada na Praça Cyro Abalém, na Ilha dos Valadares, obra do artista local Deocir Gomes. A placa original trazia um texto explicativo, destacando que, embora o verdadeiro índio Carijó não exista mais em sua forma original, seus descendentes ainda vivem de forma aculturada e merecem reconhecimento.

No entanto, desde sua inauguração, a presença da estátua dividiu opiniões. Parte dos moradores não se identificava com a homenagem, sugerindo que a obra deveria retratar um pescador, figura mais próxima da história da Ilha. O ponto mais crítico dessa controvérsia ocorreu no dia 12 de fevereiro de 2013, às 08h09, quando a estátua foi encontrada vandalizada. Os responsáveis nunca foram identificados.

Mais de um ano depois, em 18 de março de 2014, o que restava do monumento foi visto em uma fábrica de artefatos de cimento no bairro 7 de Setembro, longe do seu local original e da vista da comunidade.

Enquanto isso, a ausência de uma nova representação no espaço da praça alimenta boatos e piadas entre os moradores. Alguns comentam que no lugar do índio poderá surgir um gorila, um Pinóquio gigante ou até um boi de mármore — figuras sem qualquer ligação com a identidade insulana. Outros, mais conscientes, cobram que ali seja instalada uma homenagem legítima aos moradores ilustres da Ilha dos Valadares, gente simples, pescadores, professores, artistas, que de fato compõem a história viva da comunidade.

A estátua do índio Carijó permanece como símbolo de um debate maior: quem decide o que deve ser lembrado em nossos espaços públicos? E, mais importante ainda, será que um dia os próprios insulanos poderão escolher a imagem que melhor os representa?

Estátua do índio Carijó na Ilha dos Valadares vira memória e levanta questionamentos sobre representatividade cultural

Instalada como homenagem aos povos originários, a escultura foi alvo de vandalismo e segue esquecida, enquanto moradores cobram símbolos que representem a identidade local.










IMAGEM DO DIA: Deocir Gomes artista de Paranaguá

Artista Deocir Gomes encanta com pinturas no calçadão da Hugo Simas e leva o nome de Paranaguá para além do litoral


Morador da Ilha dos Valadares, artista é conhecido por retratar as paisagens parnanguaras e emocionar com obras que resgatam a identidade local.

Ao caminhar pelo Calçadão da Hugo Simas, no coração de Paranaguá, é impossível não notar o talento de Deocir Gomes, artista que há anos vem se destacando no cenário cultural do litoral paranaense. Morador da Ilha dos Valadares, Deocir possui o dom de transformar em arte as paisagens e elementos que fazem parte do cotidiano da cidade.

Suas obras, ricas em detalhes e expressividade, retratam com fidelidade a beleza histórica, cultural e natural de Paranaguá. Além de pintor, Deocir também é escultor e já tem várias de suas esculturas espalhadas por locais públicos, sendo admiradas por moradores e turistas.

Entre suas criações mais pessoais, destaca-se um quadro encomendado por mim em homenagem ao meu pai e confesso que fiquei muito feliz com o resultado. A sensibilidade do Deocir ao retratar um sentimento tão importante prova que, além de talento, ele coloca alma em cada obra.

O convite é para que a população não apenas aprecie o trabalho desse artista, mas também reconheça e valorize todos aqueles que, como ele, carregam o nome de Paranaguá por onde passam, através da arte e da dedicação à cultura local.


Foto e texto: Edye Venancio