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Aos 93 anos, Mário Mikosz reflete sobre o rádio, a história de Paranaguá e os caminhos do futuro

Ícone da comunicação no litoral do Paraná, o radialista compartilha memórias da Rádio Difusora, fala da importância da preservação histórica e emociona com relatos de uma vida dedicada ao microfone


Por Edye Venancio

Tive o privilégio de trabalhar com uma das maiores referências da comunicação em Paranaguá: o radialista Mário Mikosz. Ao longo de décadas, sua voz se tornou parte do cotidiano da cidade e da história do rádio no litoral paranaense. Em uma conversa franca, aos 93 anos, Mário abriu o coração e relembrou momentos marcantes da sua trajetória na Rádio Difusora AM 1460 — hoje FM 104,7 — além de fazer reflexões sobre o passado, o presente e o futuro da cidade Mãe do Paraná.

Paranaguá e o dever da preservação histórica

Com um olhar atento e crítico sobre o desenvolvimento da cidade, Mário enfatiza a necessidade de investimentos em cultura e infraestrutura. Entre os pontos citados, destaca a revitalização do Palácio Visconde de Nácar, da Casa Cecy, do Instituto Histórico e Geográfico e da Praça dos Leões — locais que, segundo ele, deveriam ser prioridades do poder público.

“O Porto deve para Paranaguá. A cidade sofre com ruas precárias e a falta de investimentos. Esses prédios são símbolos do Brasil. É preciso restaurá-los.”

Mário também relembrou os tempos em que Paranaguá vivia intensamente, com trens que conectavam a cidade à capital, bares históricos como o Bar Pátria e o Bar dos Bandidos, e noites tranquilas na Praça Fernando Amaro.

“Você andava de madrugada sem medo. A cidade respirava vida. Hoje tudo mudou.”

Da radionovela ao microfone da Difusora

Sua história na Rádio Difusora começou em 1958, quando voltou a Paranaguá após uma passagem pela Rádio Santa Felicidade, em Curitiba. O convite veio de um primo, e após um estágio sob a supervisão do padre Armando Russo, foi contratado — e nunca mais saiu.

“Era para ficar 30 dias. Estou há 67 anos. Rádio é um vício, uma cachaça. Difícil viver sem microfone.”

A Difusora foi sua segunda casa. Nela, apresentou programas que marcaram época, como Alô Música, Escolha uma Dessa, Parada de Sucessos e A Hora da Bandinha, sempre com forte participação dos ouvintes.

“A parada era feita pelo público. Os pedidos definem as posições. Música italiana, francesa, Bee Gees, Roberto Carlos... era uma riqueza musical que hoje está mais escassa.”

A história da família Mikosz no rádio

Mário também recordou com emoção a trajetória do irmão, Ludovico Mikosz, que fundou a Rádio Litoral Sul. No entanto, por conflitos societários, Ludovico acabou perdendo o controle da emissora.

“Foi uma pena. Ele terminou como porteiro da própria rádio. O radialista precisa de microfone. Muitos morrem trabalhando porque rádio é paixão.”


Reconhecimento e gratidão

Ao ser perguntado sobre o reconhecimento por sua dedicação à rádio, Mário foi modesto.

 “Não mereço nada. Fiz só minha obrigação. Tive sorte de fazer programas que as pessoas gostavam. A dívida é minha com a Difusora e os ouvintes.”


Tive o prazer de dividir o microfone com Mário Mikosz no Jornal da Manhã, e posso dizer que aprendi muito com ele. Ao mencionar isso, recebi uma resposta que levo comigo:

“Na escola da vida, não há férias. Estamos sempre aprendendo. Trabalhar numa rádio católica é sinônimo de respeito. E respeito é o que a família parnanguara mais valoriza.”

A luta diária e o futuro incerto

Prestes a completar 94 anos, Mário enfrenta as consequências de uma herpes zoster que afetou o lado esquerdo do rosto e do corpo, surgida durante a festa do Rocio, em novembro.

“As dores ainda existem, mas são suportáveis. Só Deus sabe o futuro. Jesus misericordioso é quem guia.”


Despedida com gratidão

Ao encerrar nossa conversa, deixei meu depoimento:

 “Foi um prazer ter trabalhado com você, Mário na RádioDifusoraAM 1460 quando apresentávamos ao lado do Dr. Alessandro Pires Staniscia o Jornal da Manhã. Aprendi muito e levo comigo o respeito e a admiração de todos que te conhecem. Você é parte viva da história do rádio em Paranaguá e merece todos os aplausos.”


Com sua humildade de sempre, ele respondeu:

“Não mereço, mas agradeço.”




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Texto: Jornalista Edye Venancio

Fotos: Moyses Zanardo




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