ENCOMENDAS DE BOLOS

Mandicuera: 20 anos de resistĂȘncia e arte popular na Ilha dos Valadares

Grupo fundado por Mestre Aorélio Domingues mantém viva a cultura caiçara com oficinas, festas populares e projetos de educação tradicional em Paranaguå


Em 2024, a Associação de Cultura Popular Mandicuera completou duas dĂ©cadas de atuação como um dos principais pilares da valorização e salvaguarda da cultura caiçara no litoral do ParanĂĄ. Sediado na Ilha dos Valadares, em ParanaguĂĄ, o grupo Ă© conduzido por Mestre AorĂ©lio Domingues, que hĂĄ anos ministra oficinas de confecção de instrumentos, promove vivĂȘncias culturais, realiza festas tradicionais e conduz uma sĂ©rie de projetos educativos voltados Ă  valorização das raĂ­zes locais.

A trajetĂłria de um mestre

Mestre AorĂ©lio nasceu na Ilha dos Valadares e desde cedo se envolveu com a cultura popular, aprendendo a construir rabecas com o avĂŽ. "Meu avĂŽ vendia rabeca no mercado nos anos 1980. Eu fui aprendendo nesse perĂ­odo, influenciado tambĂ©m por outros mestres da Ilha", conta. Com formação em Belas Artes, AorĂ©lio retornou Ă  cidade apĂłs a faculdade e seguiu atuando com a cultura popular, transformando o ofĂ­cio da rabeca em profissĂŁo e missĂŁo de vida.

“Hoje, eu nĂŁo trabalho sĂł com arte, mas com cultura enquanto coletivo. A Ilha dos Valadares Ă© um territĂłrio de muita diversidade. É aqui que se concentram os grupos de fandango, o que coloca ParanaguĂĄ no mapa da diversidade brasileira”, ressalta.

O nascimento da Mandicuera

A ideia de criar a Associação Mandicuera surgiu apĂłs uma expedição cultural por 16 estados e 53 cidades do Brasil. Inspirado pelo projeto Casa Grande, no Cariri (CE), AorĂ©lio entendeu a importĂąncia de criar um espaço de cultura com respaldo jurĂ­dico. “Sem CNPJ e documentação, nĂŁo conseguimos acessar polĂ­ticas pĂșblicas culturais. EntĂŁo, organizamos a associação para promover açÔes na comunidade e tambĂ©m debater polĂ­ticas culturais no Brasil”, explica.

Desde 2004, a Mandicuera atua com oficinas de dança, construção de instrumentos, capacitação de professores e açÔes de valorização da identidade caiçara. Hoje, alunos de diversos municĂ­pios do litoral sul e sudeste frequentam as oficinas, consolidando a Ilha dos Valadares como polo de referĂȘncia nacional em cultura tradicional.

Muito além do fandango

Na Mandicuera, o fandango Ă© mais do que uma dança: Ă© expressĂŁo de identidade, resistĂȘncia e luta por territĂłrio. “Fandango Ă© a ponta do iceberg. Por trĂĄs dele estĂŁo a pesca, a agricultura de subsistĂȘncia, a luta pela terra. É um movimento de resistĂȘncia do povo caiçara”, destaca AorĂ©lio.

A associação tambĂ©m realiza oficinas em escolas, promove bailes e festas populares e integra projetos como o HAHAnaguĂĄ, festival de humor que acontece em ParanaguĂĄ desde 2017. A parceria com a prefeitura tem garantido sinergia entre a promoção de grandes atraçÔes e a valorização dos artistas locais.

Homenagens aos mestres

Ao ser perguntado sobre suas maiores referĂȘncias, Mestre AorĂ©lio se emociona: “O Mestre RomĂŁo foi o primeiro a puxar esse fio da salvaguarda. Depois, o Mestre EugĂȘnio, que criou uma verdadeira escola de mĂșsica e baile. A eles se somam nomes como Mestre NemĂ©sio, JerĂŽnimo, Gabriel Martins, meu avĂŽ Rodrigo Domingues, Mestre Zeca, AnĂ­sio Pereira, Pedro Pereira... muitos jĂĄ se foram, mas deixaram legado.”

Convite Ă  comunidade

O mestre finaliza com um convite: “Quem quiser conhecer o fandango de verdade precisa ir alĂ©m do palco. Precisa visitar os mestres, comer a comida da roça, participar de um baile atĂ© amanhecer. É nesse convĂ­vio que se entende a verdadeira dimensĂŁo da cultura caiçara.”

Com 20 anos de histĂłria, a Mandicuera segue viva, pulsante e aberta a todos que desejam fazer parte dessa construção coletiva, de identidade, memĂłria e resistĂȘncia.









Mandicuera, Cultura caiçara, Fandango, Ilha dos Valadares, Mestre AorĂ©lio Domingues, ParanaguĂĄ, Cultura popular, Fandango caiçara, Rabeca, Tradição caiçara, Identidade cultural, 20 anos Mandicuera, Romaria do Divino, Boi de MamĂŁo, CulinĂĄria caiçara, PatrimĂŽnio imaterial, Educação popular, HAHAnaguĂĄ, Arte popular, TerritĂłrio caiçara


Por Edye Venancio

Fotos: Moyses Zanardo 

Postar um comentĂĄrio

0 ComentĂĄrios